Unicamp quer mais ousadia na busca por financiamentos à pesquisa

A Unicamp iniciou as discussões para a criação de um Escritório Central de Apoio a Projetos, nome ainda provisório, cujo objetivo é prospectar novas oportunidades de financiamento às pesquisas desenvolvidas pelos cientistas da Universidade. A iniciativa, prevista no Planejamento Estratégico (Planes), está sendo conduzida pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) e pela Agência de Inovação Inova Unicamp. “Em tempos de crise, precisamos exercitar a ousadia. Queremos estimular nossos pesquisadores a aumentar e qualificar a demanda por recursos junto a diferentes agências de fomento. A timidez não combina com a Unicamp”, afirma o pró-reitor de Pesquisa, Munir Salomão Skaf.

De acordo com o dirigente, ainda que o momento seja de dificuldades, materializadas na redução ou contingenciamento de recursos por parte de algumas fontes, ainda há espaço para que a Unicamp amplie a captação de financiamento à pesquisa. Um exemplo dessa oportunidade, observa Skaf, vem do Relatório de Atividades 2016 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), divulgado no último mês de agosto. O documento aponta que a Fapesp tem se mantido resiliente durante a crise. No ano considerado, a Fundação destinou R$ 1,137 bilhão para 24.685 projetos de pesquisa.

Ocorre que, do total desembolsado, 47% foram destinados à USP e somente 13% à Unicamp, mesmo percentual da Unesp. “Se considerarmos que a USP é três vezes maior que a Unicamp e se fizermos uma conta simples, tendo em vista somente esse fator de comparação, vamos perceber que nós poderíamos ter chegado a um índice próximo a 15,5%. Embora a diferença de 2,5% possa parecer pequena, ela representa aproximadamente R$ 28 milhões, o que, convenhamos, poderia impulsionar muitos projetos importantes”, analisa o pró-reitor de Pesquisa.

Skaf adverte que esse raciocínio não representa, de forma alguma, o entendimento de que a Fapesp privilegie a USP na concessão de recursos, nem que a universidade não tenha tido mérito na conquista destes. “Estamos apenas ressaltando a existência de oportunidades para a obtenção de mais financiamento”, esclarece o dirigente. Outro aspecto que reforça a compreensão de que há margem para avanço está relacionado às taxas de aprovação dos projetos, conforme aponta o professor Daniel Martins de Souza, assessor da PRP.

De 2012 a 2016, de acordo com ele, a Fapesp concedeu recursos a 407 projetos temáticos, sendo 235 da USP e 58 da Unicamp. “Nosso índice de sucesso é de 28%, bem inferior ao que poderia ser, dado que contamos com 395 professores titulares. Penso que temos margem para alargar a nossa participação na disputa por mais financiamento, não apenas em relação à Fapesp, mas também junto a outras agências de fomento, públicas e privadas, nacionais e internacionais, bem como junto a corporações do setor produtivo e instituições do terceiro setor”, ratifica Skaf.

O Escritório Central de Apoio a Projetos, conforme o pró-reitor de Pesquisa, terá a missão de auxiliar os cientistas da Unicamp nessa tarefa. Além de prospectar oportunidades, o órgão também ajudará na elaboração dos projetos, visto que eles são normalmente complexos e têm que atender a exigências que variam de acordo com a natureza dos editais. “À medida em que aumentarmos e qualificarmos a demanda junto às fontes de financiamento, imprimiremos mais efervescência aos nossos trabalhos, nas diferentes áreas do saber, atraindo mais estudantes e mais parcerias, o que também ampliará a possibilidade da execução de projetos que permitam maior desenvolvimento tecnológico e social”, infere Skaf.

Num olhar em perspectiva, salienta o professor Daniel Sousa, assessor da PRP, o Escritório deverá ter importante participação na busca por parcerias com a indústria, na instalação de novos centros de pesquisas apoiados pela Fapesp em colaboração com empresas privadas, na ação conjunta com setores governamentais e na ampliação do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp.

O pró-reitor de Pesquisa da Unicamp, Munir Skaf.

Equilíbrio

Paralelamente às discussões para a criação do Escritório Central de Apoio a Projetos, PRP vem adotando outras medidas para tentar assegurar recursos complementares para o financiamento das pesquisas da Unicamp. Uma delas tem relação com o Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (Faepex). Segundo Skaf, a PRP está trabalhando para, a partir do próximo ano, estabelecer uma programação equilibrada dos recursos do Faepex, que têm origem no orçamento da Universidade e são aprovados pelo Conselho Universitário (Consu), órgão máximo deliberativo da instituição.

O propósito da iniciativa, explica o pró-reitor de Pesquisa, é evitar que seja repetida uma situação constatada em 2017, mas que não guarda relação com as medidas de contingenciamento adotadas pela Administração Central. “Trata-se de um problema de outra ordem. Quando a atual Administração assumiu, em abril passado, nós constatamos uma situação bastante preocupante referente ao Faepex. Dos R$ 7 milhões destinados ao Fundo para o período, R$ 5,4 milhões já haviam sido gastos efetivamente entre janeiro e maio, ou seja, quase 80%. Sobraram, portanto, 20% para custear os projetos entre junho e dezembro, sendo que sobre esses 20% pesam diversos compromissos assumidos, como editais já realizados e concessão de bolsas”, elenca.

Ao fazer as projeções para o final do ano com base nesses dados, acrescenta Skaf, a PRP chegou a um cálculo que apontava para um déficit de R$ 300 mil no Faepex. “Em outras palavras, não teríamos mais nada para investir. Diante dessa situação, o Conselho do Faepex decidiu, de forma colegiada, suspender temporariamente alguns programas e reduzir drasticamente os recursos que concederíamos mensalmente por meio da demanda contínua, como auxílios às viagens e pesquisas. Com isso, reduzimos esse dispêndio de R$ 400 mil para R$ 100 mil ao mês. Essas providências darão oxigênio para que o Fundo continue atuando e chegue a dezembro com um déficit estimado em R$ 900 mil”, informa o dirigente.

A situação do Faepex, completa Skaf, também é reveladora da importância de a Unicamp buscar mais e melhores financiamentos externos para as suas pesquisas. “A demanda sobre o Faepex é boa, mas é preciso entender que o Fundo tem um papel complementar no fomento aos projetos. Nosso maior desafio é obter mais recursos externos, por meio da formulação de projetos mais longos e de maior envergadura, o que contribuirá para aliviar a pressão sobre as nossas verbas orçamentárias, que obviamente são limitadas”.