Andrei Sposito e Maria Luiza Moretti apresentam os principais achados do artigo publicado na Science

Os Pesquisadores do CEPID-OCRC, Andrei Sposito e Maria Luiza Moretti fazem parte da equipe que publicou recentemente um artigo na revista Science descrevendo a dispersão de COVID-19 no Brasil. Segue um texto redigido pelos pesquisadores expondo os principais achados e as implicações do estudo:

“Detectado pela primeira vez em Wuhan, China, no final de 2019, o novo coronavírus, SARS-CoV-2, e a nova doença respiratória, COVID-19, foram assim denominados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em fevereiro de 2020. Espalhando-se rapidamente a uma taxa alarmante, a COVID foi declarada uma pandemia em 12 de março de 2020. No início de abril, mais de 1 milhão de casos foram confirmados, sem sinais de desaceleração na transmissão. Agora em agosto, os casos de COVID-19 continuam a aumentar rapidamente, principalmente nos países do leste, tendo nesse momento os Estados Unidos como epicentro, ultrapassando a China e a Itália. O Brasil, com quase 3 milhões de casos e quase 100 mil mortes até o início de agosto de 2020, é o país mais afetado da América Latina.

De fato, no Brasil a expansão da epidemia pelo SARS-CoV-2 foi uma das mais rápidas em todo o mundo. Investigamos o impacto de intervenções não farmacêuticas na transmissão do vírus e a disseminação espacial no Brasil usando uma combinação de dados epidemiológicos, de mobilidade e genômicos. Os modelos de transmissão orientados pela mobilidade para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro mostram que o número de reprodução (Rt) atingiu um valor inferior a 1 após estas intervenções, mas aumentou lentamente para valores entre 1 e 1,3, o que condiz com o relaxamento destas medidas.

O sequenciamento e análise de genoma de um conjunto de dados geograficamente representativos de 427 genomas de 21 dos 27 estados brasileiros identificaram que houve mais de 100 introduções internacionais de SARS-CoV-2 no Brasil. Estimamos que três núcleos associados à transmissão orientada pela comunidade surgiram entre 22 e 27 de fevereiro de 2020 e já estavam bem estabelecidos antes da implementação dos NPIs e das proibições de viagens. Durante essa primeira fase do estabelecimento da epidemia de SARS-CoV-2 nas metrópoles brasileiras, descobrimos que o vírus se espalhou principalmente nas fronteiras locais e dentro do estado. Apesar das acentuadas reduções nas viagens aéreas nacionais durante esse período, detectamos um aumento de 25% no comprimento médio das distâncias percorridas simultaneamente com a disseminação do SARS-CoV-2 dos grandes centros urbanos para o resto do país. Em conclusão, nossos resultados lançam luz sobre o papel de grandes centros populacionais altamente conectados na instalação acelerada da epidemia pelo SARS-CoV-2 e fornecem evidências de que as atuais intervenções permanecem insuficientes para manter a transmissão do vírus sob controle no Brasil.”

Andrei Sposito e Maria Luiza Moretti

Referência do Artigo: Candido DS et al. Science 2020, doi: 10.1126/Science.abd2161.